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[A Caverna] – Frustração

Por: Rachel Scheller | Via: Writers Digest (link original da matéria)
Tradução: Mia (www.blogdamia.com)

Usar emoção/sentimentos para criar um personagem forte e emocional é essencial para qualquer escritor de qualquer gênero. Saber que tipo de emoção, quando e como usá-las é uma coisa completamente diferente. Por mais que nossos personagens tenham a mesma ampla gama de emoções que nós temos, a frustração muitas vezes é o elemento mais abrangente que impulsiona a trama e cria motivação.

Num trecho de “ Write Great Fiction: Characters, Emotion & Viewpoint”, de Nancy Kress, a autora nos mostra diferentes maneiras que um personagem pode agir quando frustrado em determinada situação. Usando esses exemplos, e os exercícios mais abaixo, você pode criar personagens frustrados que vão fazer sua estória avançar num ritmo constante ao mesmo tempo que atrai o leitor para um cenário realista.

FRUSTRAÇÃO – O SENTIMENTO ÚTIL NA FICÇÃO

Responda rápido: qual é a emoção mais importante que seu personagem sente? Amor? Ódio? Raiva? Desejo? Todos esses são cruciais. O amor por uma pessoa ou o desejo de atingir um objetivo é que impulsiona a maioria das tramas. Ódio ou raiva impulsiona o resto. Anna Karenina ama Vronsky, a bruxa malvada odeia a Branca de Neve, Ahab está furioso com Mody Dick, Nero Wolfe quer resolver os casos de assassinatos. Contudo, apesar dessa lista impressionante, o sentimento mais importante da ficção é outra coisa.

A frustração.

Digo isso porque sem frustração não há trama. Frustração significa que alguém não está conseguindo o que quer e é isso que faz a estória funcionar. Motivação, valores e desejos iniciam o personagem em sua jornada fictícia. Climax são geralmente fornecidos em cenas de amor, batalha ou morte. Mas tudo no meio, isso significa sua estória, é impulsionado pela frustração.

Considere: se Anna ficasse com Vronsky facilmente e sem se frustrar com ninguém, ou se Ahab matasse a baleia da primeira vez que tentasse, as duas estórias estariam acabadas. Ao invés disso, Anna e Ahab (e a bruxa má e Nero Wolfe) foram frustrados em atingir seus objetivos. Frustração cria estórias.

Assim, cabe a você, o escritor, prestar considerável atenção a frustração. Como a frustração é ligada ao personagem? Como você pode usar a frustração do personagem para melhor proveito? Como você vai retratar essa importante emoção efeticamente? Assim como tudo na escrita não existem respostas simples e absolutas, mas há algumas dicas mostradas pela experiência.

FRUSTRAÇÃO E PERSONAGENS: ELA FEZ O QUÊ?

Pense nas pessoas que você conhece. Tenho certeza, mesmo sem nunca ter conhecido seus amigos e família, que eles se diferenciam dos outros em muitos aspectos importantes, um deles é como eles lidam com a frustração. Algumas formas típicas de como as pessoas reagem ao serem negadas aquilo que querem:

  • Raiva
  • Lágrimas
  • Determinação para se esforçar mais
  • Culpar a pessoa mais próxima
  • Culpar o universo
  • Culpar a si mesmas
  • Beber
  • Desabafar a frustração com um amigo de confiança
  • Desistir
  • Buscar vingança com o que quer que os tenha frustrado
  • Rezar
  • Dar de ombros e fingir estoicismo
  • Entrar em depressão

Agora a grande dúvida: Quais dessas respostas à frustração seus personagens escolherão? A resposta depende de duas coisas: que tipo de pessoa ele/ela é e o que você quer que aconteça na trama.

É uma boa ideia pensar sobre essas perguntas antes de começar a escrever porque como seu personagem reage a frustração está amarrado a caracterização dele como um todo. Por exemplo, uma mulher que reage a frustração sem o menor auto-controle, jogando coisas para todos os lados e gritando, não pode, na próxima cena, ser fria e calculista. Igualmente um homem que culpa a si mesmo pelos seus problemas não irá plausivelmente sair e matar quem o causou a frustração. Então que tipo de pessoa é o teu personagem? Isso é, claro, a pergunta-chave que fizemos todo esse tempo, mas considere agora por outro ângulo: a reação natural da pessoa que você inventou somada a o quão boa ela é em controlar e modificar essa reação.

Aqui, Tom Wingo em “Pat Conroy’s The Prince of Tides”, está tentando ver sua irmã Savannah, que tentou se matar, e está sendo frustrado pela psiquiatra dela:

– O café está bom, Tom? – ela perguntou absolutamente controlada.
– É, tá uma maravilha. Agora, sobre Savannah.
– Quero que seja paciente, Tom. Entraremos no assunto de Savannah em um momento. – a médica disse num tom condescendente moldada por muitos degraus avançados. – Tem umas perguntas de background que preciso perguntar se quiser ajudar Savannah. E estou certa de que queremos ajudá-la, não é?
– Não se você continuar a falar comigo nesse tom insuportavelmente arrogante, Doutora, como se eu fosse um chimpanzé berrante que você está tentando ensinar a escrever. E não até você dizer como está a droga da minha irmã.

Nessa pequena vinheta, Tom reage a frustração com sarcasmo (É, tá uma maravilha), impaciência e raiva. Isso é basicamente como ele reagia quando criança e também é como ele reagirá a outros problemas no decorrer do livro, quase destruindo sua família, até que a vida o ensina a se comportar de modo diferente.

Sarcasmo e raiva não são, é claro, as únicas possíveis respostas a frustração. Se Tom fosse um tipo de pessoa diferente, ele poderia:

  • Humildemente procurar a ajuda médica, fazendo o que quer que ela dissesse e sentindo-se grato por receber uma direção
  • Ter ido a uma igreja para rezar pela alma de Savannah, ao invés de ter ido a Nova York
  • Ter visto Savanna como um problemática demais e má influência para seus filhos, então por que ele deveria fazer qualquer coisa?
  • Ter entendido que os problemas de Savanna eram só mais um sinal que o universo é podre e resolvido, por final, ir ao bar beber até esquecer sua amargura.

A resposta define Tom Wingo como uma pessoa e um personagem no livro de Conroy.

De fato, ela determina o andar do livro. Como?

 

TRAMANDO A PARTIR DA FRUSTRAÇÃO

Uma reação diferente do Tom Wingo a sua frustração resultaria em um livro radicalmente diferente. Como seu personagem consegue lidar com a frustração determinará os maiores elementos da sua trama. O personagem vai brigar, buscando vingança por quem quer que lhe frustrou? Então sua trama irá conter brigas e esquemas de como-dar-o-troco. O personagem desiste? Então ou alguém precisa motivá-lo e salvá-lo ou ele terá que aprender a viver sem o que ele queria (os dois são tramas respeitáveis). O personagem tenta (e tenta e tenta e tenta) até conseguir? Então você terá um otimista, uma história de vítória apesar das dificuldades.

Por exemplo, considere o best seller de Mario Puzzo, “O Poderoso Chefão”. Quando é feita uma tentativa contra a vida de Don Corleone por mafiosos rivais auxiliados por um policial corrupto, os dois filhos do don reagem de forma muito diferente. Sonny Corleone quer ir com força total, em busca de vingança imediata (ele faz isso mais tarde, em resposta a uma frustração diferente, o que resulta em sua morte). Michael Corleone tem uma reação diferente para quando as coisas não acontecem do jeito que ele quer. Ele planeja, fria e racionalmente, uma vingança. Seus planos contra todos os que frustraram a sua família (policial corrupto, bandidos rivais, o assassino de Sonny) fornecem a trama para todo o resto do livro.

Então pense cuidadosamente sobre como o seu personagem reage quando não consegue o que quer. Será que essa reação pode fornecer ideias para a trama?

 

MAIS FRUSTRAÇÃO = EMOÇÕES MISTURADAS

Justamente por frustração ser uma emoção tão importante na ficção, o quão bem nós retratamos pode fazer a diferença entre personagens que parecem reais e aqueles que parecem de papelão.

Um erro comum em retratar a frustração é assumir que nós, sua audiência, sabemos o que seu personagem está sentindo. Isso geralmente acontece porque o autor sente exatamente o que o personagem sente e assume que todo mundo faz o mesmo. Vamos dizer que o protagonista não foi convidado para o casamento da cunhada. Um evento social desse tamanho faria o autor se sentir ligeiramente magoado e deprimido, então ele poderia escrever a reação do protagonista igualmente magoado e deprimido… e esperar que o leitor automaticamente saiba disso. Afinal, os dois se sentiriam deixados de lado, então porque outra pessoa não se sentiria assim?

Não. Como vimos, pessoas reagem a frustração com uma gama de emoções e ações espantosamente diferentes. (Algumas pessoas, por exemplo, adorariam serem poupadas e não irem ao casamento). Portanto, você deve dramatizar a frustração do personagem, completamente e convincente o suficiente para que leitores compartilhem a emoção mesmo sabendo que a reação deles próprios seria diferente. Essa é uma situação em que é crucial se “tornar o leitor”, dando um passo para trás e revisar seu trabalho como se você fosse outra pessoa.

Para complicar a tarefa ainda mais a tarefa, é fato que frustração, como, por exemplo, o amor, raramente é uma emoção “pura”. Ela vem misturada com tantos outros sentimentos: raiva (“Como ousam!”), mágoa (“Por que eles não me ajudam?”), medo (“Nunca conseguirei o que eu quero.”), culpa (“Não sou bom o suficiente para vencer.”), resignação (“Não posso vencer o tempo todo.”), ou amargura (“A vida é uma bosta.”).

A resposta natural para a frustração de Amber St. Clare a protagonista de “ Forever Amber”, da Kathleen Winsor, é raiva. Mas perceba o que acontece durante uma briga com seu terceiro marido, que a fez deixar uma festa bem no começo:

– Você me tirou de lá porque eu estava me divertindo! Você não aguenta ver ninguém feliz!
– Pelo contrário, Madame. De modo algum sou contra a felicidade. Mas eu sou contra observar a minha mulher fazer um papel de ridículo… Você sabe tão bem quanto eu o que estava passando pela mente daqueles homens hoje.”
– Bem? – ela berrou, cerrando os punhos. – E daí? Não é sempre isso que está na mente de todo homem?! Está na sua também, mesmo que você… – então ela parou, de repente, pois ele lhe deu um olhar tão rápido e venenoso, tão amedrontador que as palavras ficaram presas na garganta e ela permaneceu quieta.

A raiva natural da Amber foi modificada pelo medo e o resto da cena é bem mais interessante do que outra briga qualquer entra ela e qualquer um dos seus muitos companheiros.

Para usar essa técnica, pergunte a si mesmo: Qual é a primeira reação do meu personagem a frustração? O que mais ele poderia estar sentindo em resposta a este momento em particular, contrariando seus desejos?

Será que a segunda emoção também pode ser útil na trama? (O medo da Amber, que cresce através de vários confrontos mais frustrantes com seu marido, eventualmente, a leva a matá-lo antes que ele possa matá-la.)

 

ESCREVENDO FRUSTRAÇÃO REALISTA: EXERCÍCIOS

  1. Pense na última vez que você se sentiu completamente frustrado. Talvez você não conseguiu fazer uma pessoa ver o seu ponto de vista, você não conseguiu fazer um aparelho funcionar corretamente, não importa o que tentasse, ou você estava lidando com uma burocracia particularmente recalcitrante. Sente-se calmamente e lembre-se, tanto quanto você puder, sobre como você se sentiu, o que pensou, e como o seu corpo reagiu. Anote os pontos mais importantes.
  2. Liste três pessoas que você conhece bem e que têm diferentes tipos de personalidade. Para cada uma, anote como ela poderia ter reagido às mesmas circunstâncias frustrantes que você experimentou. O que cada uma pode ter pensado? Sentido no corpo? Dito em voz alta? Feito em seguida?
  3. Olhe para a sua lista. Algum desses personagens é interessante para você? Se for, imagine-se dando-lhes algo muito maior e ainda mais frustrante para reagir: assédio repetitivo de um vizinho. Uma demissão completamente injusta. Roubo de identidade. As reações te levam a imaginar mais desenvolvimentos do enredo para esta situação? Se não, coloque a pessoa mais intrigante da sua lista em uma situação que não interessa a você. O que pode frustrá-la lá? Como ela reagiria a isso?
  4. Encontre uma cena no seu livro favorito onde um personagem é frustrado na obtenção de algo que ele quer. Que outras emoções, se houver, ele sente além de frustração? Como o autor fez você saber disso? Há algo aqui que você pode usar para a sua história?