[Parte #3] – Identificação

Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 3 – IDENTIFICAÇÃO 

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Identificação é muito confundida com simpatia. Simpatia é conquistada quando o leitor sente pena da situação de algum personagem. Mas um leitor pode sentir pena de um miserável repugnante que está prestes a se ferrar, sem ainda sentir identificação com ele.

Identificação acontece quando o leitor não somente sente simpatia pela situação do personagem, como também apoia seus objetivos, aspirações e tem um forte desejo de que o personagem consiga alcançá-los.

Em Tubarão, o leitor apoia o objetivo de Brody de destruir o tubarão.

Em Carrie, a Estranha, o leitor apoia os anseios de Carrie em ir ao baile, contra os desejos de sua tirana mãe.

Em Orgulho e Preconceito, o leitor apoia o desejo de Elizabeth de se apaixonar e se casar.

Em O Processo, o leitor apoia a determinação de K para se libertar das garras da lei.

Em Crime e Castigo, o leitor apoia o desejo de Raskolnikov de escapar da pobreza.

Em A Glória de um Covarde, o leitor apoia o desejo de Henry de provar a si mesmo que não é covarde.

Em E o Vento Levou, o leitor apoia o desejo de Scarlett de conseguir de volta sua plantação depois que ela é destruída pelos Yankees.

Massa, você diz, mas e se você está escrevendo sobre um repugnante infeliz? Como fazer para que os leitores se identifiquem com ele? Fácil.

Digamos que você tenha um personagem que está na prisão. Ele é tratado horrivelmente, espancado pelos guardas e por outros presos, abandonado por sua família. Mesmo sendo incrivelmente culpado, o leitor sentirá pena dele, então você já ganhou a simpatia. Mas será que o leitor se identificará com ele?

Digamos que o objetivo dele é escapar da prisão. O leitor não vai necessariamente se identificar com seu objetivo, porque ele é, digamos, um assassino cruel. Um leitor que quer que ele fique na prisão irá se identificar com os procuradores, juízes, júris e os guardas, que querem que ele fique exatamente onde está. É possível, porém, que o leitor venha a se identificar com o objetivo do prisioneiro, se ele tem um desejo de melhorar e reparar o que fez. Dê ao seu personagem um objetivo nobre, e o leitor tomará seu lado, não importa o quanto degenerado ele provou ser no passado.

Mario Puzo teve um problema quando escreveu O Poderoso Chefão. Seu protagonista, Don Corleone, ganhava a vida pela agiotagem, executando esquemas de proteção, e corrompendo os sindicatos. Dificilmente alguém que você gostaria de convidar para uma noite em sua casa. Para permanecer no negócio, Don Corleone subornava políticos, comprava jornalistas, intimidava comerciantes italianos para que vendessem apenas o óleo de oliva Genco Pura, e fazia ofertas impossíveis de se recusar.

Vamos ser honestos, Don Corleone era um degenerado de primeira linha. Provavelmente, não é um personagem que o leitor simpatize e se identifique com ele. No entanto, Puzo queria que os leitores simpatizassem e se identificassem com Don Corleone e ele foi capaz de fazê-lo. Milhões de pessoas que leram o livro e mais milhões que viram o filme simpatizaram e se identificaram com Don Corleone.

Como é que Mario Puzo conseguiu este milagre? 

Com um golpe de gênio, criando a magia da simpatia por um personagem que havia sofrido uma injustiça e ligando Don Corleone a um objetivo nobre.

Mario Puzo não começou sua história com Don Corleone batendo num pobre idiota com um par de sapatos de cimento, o que teria levado o leitor a desprezá-lo. Em vez disso, ele começa com um trabalhador, Amerigo Bonasera, parado em frente a um tribunal americano enquanto “esperava por  justiça; vingança contra os homens que tão cruelmente feriram sua filha, que haviam tentado desonrá-la” Mas o juiz permite que os homens saiam com uma pena suspensa. Como o narrador de Puzo nos diz:

“Todos aqueles anos na América, Amerigo Bonasera confiara na lei e na ordem. E tinha prosperado assim. Agora, embora com o cérebro alimentado pelo ódio, por visões selvagens até nos ossos de seu cérebro, por comprar uma arma e matar os dois jovens, Bonasera voltou-se para sua esposa, que ainda não compreendia, e explicou-lhe: “Eles nos fizeram de bobos.” Ele fez uma pausa e então tomou a decisão, não mais temendo o custo. “Por justiça, nós devemos nos ajoelhar a Don Corleone.”

Obviamente, o leitor tem simpatia pelo Sr. Bonasera, que só quer justiça pela sua filha. E já que o Sr. Bonasera deve ir a Don Corleone para obter justiça, a nossa simpatia é transferida para Don Corleone, o homem que traz justiça. Puzo forja um vínculo emocional positivo entre o leitor e Don Corleone através da simpatia, criando uma situação em que o leitor se identifica com o objetivo de Don Corleone de obter justiça para o pobre Sr. Bonasera e sua filha infeliz.

Em seguida, Puzo reforça a identificação do leitor com Don Corleone, quando “o Turco” se aproximar dele para lidar com droga e Don, por uma questão de princípios, recusa. O leitor se identifica com Don Corleone ainda mais. Ao dar a Don um código de honra pessoal, Puzo ajuda o leitor a julgar a sua repulsa por chefões do crime. Em vez de odiar Don Corleone, o leitor está em plena simpatia por ele, identificando-se e defendendo a sua causa.

— Nos vemos no próximo post sobre EMPATIA! —

ps: antepenultimo post da série How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.