The Last of Us

Sabe aquela sensação de quando acabamos de ler um livro muito bom, daqueles que mudam nossas vidas? Daqueles que quando acabamos e fechamos, começamos a refletir sobre um monte de coisa olhando para o nada por vários minutos? Foi assim que eu me senti quando terminei The Last of Us e fiquei encarando os créditos passarem.

Minha história com The Last of Us é diferente. Eu não jogo nada de terror ou survival. Sou dessas pessoas que se impressionam, que torcem, que se conectam com personagens, que sonha e perde noites de sono pensando em possibilidades de personagem X ou Y ter se livrado daquela enrascada se ele fizesse tal coisa. E, pensa comigo, sonhar com zumbi é o cagaço do cagaço. É o Rei dos Cagaços. Não é pra mim.

O que acontece é que vi o trailer de The Last of Us Parte II que saiu na Playstation Experience 2016 e achei incrivelmente bonito. Tudo. A beleza dos gráficos, a interpretação da garota no violão. A figura do Joel. O ódio na expressão da Ellie. Absolutamente tudo. Aliás, fiquei muito viciada nessa música e depois no Shawn James, cantor de Through the Valley (dá pra escutar todo o CD no Spotfy, inclusive!).

E acontece que eu queria saber porque essa galera estava gritando com tanto fervor assim. Eu queria saber o motivo do ódio da Ellie. Eu queria saber quando houve essa ligação entre Joel e Ellie. Eu tinha que jogar…

Quando zerei Batman Arkham Knight, resolvi trocá-lo por The Last of Us e The Order. O detalhe é que BAK foi meu primeiro jogo do PS4, que comprei em 2015. E fiquei com TLOU todo esse tempo comigo, parado, somente por medo de jogar. Quase passo ele pra frente, se não fosse a pirangagem do comprador, eu teria vendido mesmo. Teria vendido sem nem dar uma chance pra essa história.

Porque, na real, é a narrativa que importa em The Last of Us. É o poder dessa história.

Tá, tem zumbis e eles assustam pra caramba, principalmente se você já tem um cagaço, mas eles acabam que são só um detalhe.

Chega um momento do jogo onde é muito mais tenso encontrar gente do que os infectados.

Não surpreende, é claro. As pessoas que ainda restam – os últimos deles, tal como diz o título – estão passando por terríveis perrengues. Não tem comida, não tem liberdade. Não tem mais nada, além de uma sensação de que tudo vai acabar de um modo horrível. Ou você vai morrer de fome, ou vai morrer porque não cumpriu ordens ou vai acabar virando um infectado. E isso as torna imprevisíveis. Você corre o risco não só de morrer nas mãos delas, mas de ser prisioneiro, de ser estuprado, de ser violado de todas as formas que conseguimos pensar porque é que acontece nos dias de hoje, mesmo sem zumbis.

Já os zumbis são só zumbis. Numa determinada fase do vírus eles nem enxergam mais, o que facilita a vida do jogador, que só precisa passar por eles em silêncio. O zumbi só quer matar você e pronto.

O jogo faz você se sentir numa montanha russa de emoções. Com o poder da sua narrativa, ele consegue fazer o que chamamos na escrita de “Transportar o leitor“. Ele faz você perder a noção de onde está, você simplesmente está dentro do jogo o tempo inteiro. E é sempre tenso. Você nunca sabe quem vai aparecer do nada pra tentar te matar.

Joel e Ellie acabam juntos por coisa do destino. Ele já muito calejado e modificado pelo novo mundo. E pra ela é tudo muito novo. Ele já um cara de quase 40 e ela com 14 anos, acho que com a mesma idade da filha dele, a Sarah, quando ela morreu.

A Ellie é uma encomenda. Ela deve ser entregue aos vaga-lumes, esse grupo que combate os oficiais e busca loucamente por uma cura. A Ellie é imune, mas só é imune aos zumbis, não ao resto dos humanos, que não tem muito escrúpulo pelo jogo… Ela é a única chave que os humanos têm para voltar ao que era antes. E o jogo conta esse caminho que os personagens fazem para se aceitar um com outro. O Joel sabe que ela não é a Sarah nem nunca será. A Ellie sabe que Joel não é seu pai e nunca será, mas eles são tudo o que têm. E agora, porque já terminei o jogo, fica claro onde exatamente houve a ligação definitiva entre os dois, e a cena é linda.

É uma história muito bonita, narrativa perfeita e personagens redondos de muitas camadas. Impossível não se transportar para a história. Impossível não torcer pelos personagens. Eu indicaria fácil a qualquer 1 que me perguntasse. Cara… eu vou precisar de um tempo pra me recuperar.