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[Parte #5] – O Leitor Transportado

Fonte: ‘How To Write a Damn Good Novel’ de James N. Frey.
Tradução quase literal por: Mia
PARTE 5 – O LEITOR TRANSPORTADO

ULTIMA PARTE DA SÉRIE 

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Quando transportado, o leitor meio que entra numa espécie de bolha, totalmente envolvido no mundo fictício a ponto em que o mundo real se evapora. Esse é o objetivo do escritor de ficção: levar o leitor a ponto da completa absorção com os personagens e seu mundo.

Em hipnose, isso é chamado de estado pleno. O hipnotizador, em controle, sugere que o sujeito imite um pato e ele o fará com toda a felicidade. Se um escritor de ficção levar o leitor ao estado pleno, o leitor chora, ri e sente a dor do personagem, pensa o que o que o personagem pensa e participa das decisões dele.

Leitores nesse estado podem ficar tão concentrados que para chamar sua atenção, muitas vezes precisam ser sacudidos. “Ei, Charlie! Larga esse livro! O jantar está pronto! Tá surdo?

Então como levar seu leitor da simpatia, identificação e empatia para o estado de total absorção? A resposta: conflito interno.

Conflitos internos são uma tempestade furiosa dentro dos personagens: suas dúvidas, receios, culpas, remorsos, indecisões. Um vez que já sinta simpatia, identificação e empatia com os personagens, o leitor estará aberto a sofrer suas dores de remorso, sentir sua culpa, vivenciar suas dúvidas e receios, e, o mais importante de tudo, tomar partido nas decisões que eles são forçados a fazer. Estas decisões são quase sempre de natureza moral e traz graves conseqüências para o personagem. Sua honra ou alto-estima estará em jogo.

É nessa participação do processo de decisão, que o leitor está sentido as culpas, dúvidas, receios e remorsos do personagem, e está torcendo para que o personagem tome uma decisão ao invés de outra, isso transporta o leitor.

Aqui vai um exemplo tirado de Carrie, A Estranha. Nessa cena, Carrie está esperando o namorado para irem ao baile, não sabendo se ele virá.

Ela abriu os olhos novamente. O relógio cuco, comprado com Selos Verdes, lhe dizia que eram sete e dez.

(Ele estará aqui em 20 minutos)

Será mesmo?

Talvez fosse tudo uma brincadeira elaborada, o golpe final. Para deixá-la sentada ali metade da noite em seu vestido de baile de veludo amassado com cintura alta, mangas no estilo Juliet, uma simples saia – e uma rosa, presa ao seu ombro esquerdo…

Carrie não achava que alguém pudesse entender a total coragem que havia tomado ao fazer aquilo, ao se abrir para qualquer possibilidade assustadora que a noite lhe pudesse trazer. Levantar-se dificilmente seria o pior de todos.

De fato, em termos de escapar, ela desejou que talvez fosse melhor se…

(Não, pare com isso)

Claro que seria mais fácil ficar aqui com sua mãe. Seria mais seguro. Ela sabia o que todos achavam de sua mãe. Bem, talvez a mamãe fosse uma fanática, uma louca, mas ao menos ela era previsível.

Observe como, quando o personagem está à beira de um conflito interno, há uma atração igual em duas direções. Carrie quer desesperadamente ir ao baile, ainda assim é muito mais seguro ficar em casa.

Franz Kafka coloca Joseph K. no meio de um conflito interno assim:

K. fez uma pausa e olhou para o chão atrás dele. Por enquanto ele ainda estava livre, poderia continuar em seu caminho e desaparecer através de uma das pequenas e escuras portas de madeira que ele via não muito distantes.

Isso indicaria simplesmente que ele não havia entendido a ordem, ou que havia entendido e não se importou. Mas se ele virasse, seria preso, pois isso equivaleria a uma admissão de que havia entendido muito bem, que ele era realmente a pessoa abordada, e que estava pronto para obedecer…

É uma pequena decisão, mas com a possibilidade de grandes consequências. Ele deve atravessar a porta ou não? O leitor também compartilhará esse dilema.

Em Crime e Castigo, Dostoiévski coloca seu herói no meio de um intenso conflito interno, ao contemplar assassinato:

Raskolnikov saiu em um estado de espírito perturbado. Enquanto descia as escadas parava de vez em quando, como que dominado por violentas emoções. Quando finalmente chegou a rua, exclamou para si:

“Como é repugnante tudo isso! Será que posso, eu posso? Não, é absurdo, irracional! Como poderia uma idéia tão horrível passar pela minha cabeça? Como eu poderia ser capaz de tal infâmia? É odioso, ignóbil, repugnante! E ainda assim, durante todo o mês…”

A desprezível sensação de nojo que tinha começado a oprimi-lo em seu caminho para a casa da velha, havia se tornado tão intensa que ele desejava encontrar alguma maneira de escapar da tortura.

Dostoiévski é mestre em conflito interno. Nesta parte, ocorreu a Raskólnikov que a solução para seus problemas de pobreza será cometer um assassinato, mas a sua consciência tem uma erupção vulcânica.

A geniosidade de Dostoiévski estava em sua capacidade de colocar seus personagens em um intenso conflito interno e mantê-los lá no decorrer da história, mantendo assim o leitor totalmente transportado.

Conflito interno pode ser pensado como uma batalha entre duas “vozes” dentro do personagem: uma é a razãoa outra é a paixão – ou de duas paixões conflitantes. Um deles, um protagonista, algum outro outro, um antagonista…

Agnes pensou: vou matá-lo quando chega em casa, amassar seu maldito crânio. Mas e se ele estiver naquele bom humor? E se ele começar a cantar aquela canção de amor que escreveu para mim? Quero nem saber! No momento em que ele passar por aquela porta, é um homem morto!

Estas vozes estão em crescente conflito que geralmente vêm com algum tipo de clímax, em que é tomada uma decisão e que isso leva a uma ação. Quando você pensa em personagens em meio a conflitos internos, pense nelas como tendo dois concorrentes, escolhas igualmente desejáveis de ação, cada uma apoiada por sua própria voz. O personagem está, então, em cima de um dilema, e isso é exatamente onde você quer que ele esteja.